11 de dez de 2010

Certa vez...

Uma moça estava andando apressadamente, saindo da sua aula, correndo para não se atrasar na reunião de grupo de mais um trabalho acadêmico. Por um quase meio instante lembrou de como tinha pesadelos com isso, com uma instituição acadêmica, a tão idolatrada “Universidade” que sua mãe insistiu em passar falando e comentando desde que a moça nasceu. Esse tempo foi o suficiente para trazê-la o segundo maior estrago de sua vida, tropeçou em seu próprio pé, como era de costume, e deixou cair seus trabalhos, seus cadernos e livros, atitude que não era tão de costume assim.
Quando levantou carregando e ajeitando tudo trombou com alguém, saiu pedindo “desculpas” sem ao menos olhar pra trás, sentiu-se presa. Por que seu braço direito ficou há 10 segundos do passado, enquanto todo o resto de seu corpo já estava no futuro um tempinho? Vira-se, vê uma mão grande, masculina, ajeitando seus trabalhos, seus cadernos e livros. Fita-o. A recepção daquele olhar lhe assustou um bocado.
 – Desculpa, pensei que você fosse outra pessoa. Nossa! To enlouquecendo, vocês nem se parecem!
- Tudo bem, eu devo ter um rosto bastante comum mesmo. – ali, com esta resposta cavava um futuro de lágrimas, incertezas e revoltas.
O rapaz a vigiou na semana seguinte, descobriu seu curso, seus gostos, seus interesses, rondou seus amigos de faculdade e, então, numa fria quinta-feira se reaproximou da jovem moça, se reapresentou e tentou ser seu amigo.
Dali, notaram que em 98% das situações eram opostos.
Ela vegetariana, ele carnívoro; ele viciado em musculação e academias, ela no máximo caminhava da estação do metrô até a faculdade; ele voava como um pássaro, ela era uma árvore com raízes profundas e largas; ele militar, ela artista.  Mas os outros 2% fizeram eles acreditarem que poderia ser interessante um relacionamento dos dois.
Primeiro 1% que os ligavam: ambos acreditavam (ou ao menos queriam acreditar) que eram apaixonados pelos seus respectivos melhores amigos de infância e estavam cansados desse lado infantil e doentio neles.
 Foi fácil para ele fazê-la acreditar que os dois poderiam esquecer juntos seus amores de infância, para ela foi fácil acreditar naqueles olhos que demonstravam tanto carinho. Mas, era óbvio que essa era a desculpa mais esfarrapada que todos os seres humanos do mundo já ouviram para duas pessoas ficarem juntas.
Segundo 1% da ligação: aqueles dois sonhavam, cada um de sua maneira, é claro. Mas sonhavam. E, essa possibilidade de sonhar, de viver para um sonho os uniu, desvaneceu os 98% como o vento desvanecera os grãos de areia na praia.
Em 1 mês os dois pareciam aqueles senhores idosos que se casaram há 30 anos atrás, mas ao mesmo tempo se olham como se fosse a primeira vez, como se tivessem conhecendo aqueles olhos pela primeira vez. A moça estava radiante, pela primeira vez na vida, algo real e bonito acontecia. Nem ao menos sentia vergonha disso.
Mas, um dia juntos a moça sentiu o namorado distante, olhando para o céu, sonhando, parecia que ela nem estava ali. Ela não perguntou o que acontecia, com medo de estragar tudo, de escutar aquilo que imaginava, preferiu dedicar-se a observá-lo. Assim o fez, observou cada detalhe daquele rosto, daqueles olhos castanhos que quando a beijáva parecia gigantes com o seu próprio reflexo neles, a barba, as suas tão carinhosas mãos e o sorriso torto, singelo, sem graça quando percebeu que ela olhava-o.
Nesse momento, a moça sentiu uma dor no peito seguida de um extremo medo de perdê-lo e segurou com mais força a mão do rapaz, ele acariciou a mão da moça, suavemente, pois tinha medo de quebrá-la a qualquer instante. Para acabar com o momento silencioso e terrivelmente aterrorizante a abraçou, um abraço inesquecível para moça, mesmo depois de tanto tempo.
Assim recomeçaram as brincadeiras, aquelas bobagens de pessoas apaixonadas...
- Deve ser ruim ser tão pequena, né? – abraça-a e levantá-a.
- Você sempre fala isso, né? Eu não me importo nem um pouco com o meu tamanho, aliás, o senhor que cresceu demais, saiba que eu sou acima da média da mulher brasileira, tá? Sem contar que eu conheço mulheres muito menores que eu ....
Ele ria sem parar, adorava provocá-la e fazê-la falar um tanto de coisas sem jeito para defender algo que nem ela mesmo sabia se queria defender tanto assim. Nesse momento, ele beijou-a e a quando olhou nos olhos dela novamente, gostaria de lhe falar “Você não merece quem eu sou, você é bonita demais, inteligente demais pra mim, por favor, vá atrás de outro alguém”.
Mas, pelo contrário, tirou o cabelo do rosto dela levemente, e :
- Ainda bem que eu te encontrei aquele dia toda atrapalhada na porta da faculdade. Obrigada por conseguir mudar o rumo da minha vida. – beijou suavemente aqueles lábios – Você é linda.
Claro, que ela ficou corada, sem graça, não sabia lidar com elogios, muito menos com o que tinha acabado de escutar, apenas sorriu timidamente. Apesar da enorme vontade que tinha de dizer que ele tinha mudado tudo na vida dela. E, ele entendeu a besteira que havia cometido. Ela fugiu disso tudo, dizendo que tinha que ir embora e ainda frizou que dentro de 15 minutos a aula dele começaria.
Deste dia, então, passaram três dias de uma amargura e uma dor no peito, choros e mais choros por parte dela. Ele sumiu, ela não o encontrava em lugar nenhum, parecia que ele tinha evaporado junto com aquele lindo dia vivido. Ela que nunca admitiu chorar por homem nenhum, mal se alimentava, se arrastava pelos corredores da universidade, abandonou as lentes de contatos pois seus olhos viviam inchados de tanto chorar pela madrugada, ou nos intervalos para as amigas.
Daí, ele deixa uma mensagem com uma de suas amigas pedindo para que ela se encontre com ele. Não consegue disfarçar o sorriso aliviado. Mesmo sentindo que nunca mais o veria como aquele dia, que algo tinha acontecido e ela teria o perdido.
Ela chega.
Espera o habitual cumprimento.
Recebe um beijo na bochecha frio que lhe arrancou 1/3 do seu coração.
Ele inicia o diálogo, sem coragem de encará-la realmente.
- Você ta bem?
- Acho que sim e você? – observa e sente que ele esconde uma felicidade que não é dividida com o seu universo.
- To bem.
Silêncio brutal e pecaminoso.
Ela estava machucada demais e com o ego ferido demais para continuar aquela conversa.
Simplesmente o observava, como aquele dia.
Porém, hoje seus olhos questionavam o que havia acontecido, ao mesmo tempo implorava pra ser um pesadelo e que seu despertador tocasse em seguida.
- Eu acho que lhe devo explicações. – tentou segurar na mão da moça, mas ela impediu. – Me desculpa, eu não poderia ter feito isso com você. Ta na sua cara que você ta com essas olheiras por minha causa.
Se sentir fraca, pequena e por baixo, era a pior coisa pra ela, foi assim que retrucou:
- Você me chamou aqui pra falar exatamente o que que eu não saiba? Hein?
- Então, vou ser sincero. Desculpa de novo – aquelas desculpas davam um nó no estômago da moça e uma vontade bater nele por tudo isso – É que sabe aquela menina? Aquela da minha infância que eu te falei? Então, a gente se esbarrou esses dias e ela pediu que eu voltasse com ela, eu tinha você. Mas ver aquele desejo, aquele sonho de criança podendo ser realizado na minha frente era demais, você deve entender.
- Não, eu não entendo.
- Me desculpa – mais uma náusea – Eu nem acredito que tive a chance de ter ao meu lado uma pessoa igual você. Você é linda, inteligente, sabe aquilo que quer. É o sonho de qualquer homem. Eu sei que logo logo o seu príncipe encantado de verdade aparece.
Ela nem ousou pensar em respondê-lo,afinal ela era o sonho de qualquer homem, mas ele não se enquadrava no "qualquer homem". Sentia todos os sentimentos humanos ao mesmo tempo. Não sabia o que pensar, como agir.
- Só quero te pedir uma coisa, vamos continuar sendo amigos. A sua energia é tão boa, eu gosto tanto de você, eu quero e preciso muito da sua amizade.
- Tudo bem.
A menina foi embora, chorando durante todo o caminho sem se importar com as pessoas a olhando, a achando fraca e deplorável. Afinal, ela nunca tinha se permitido coisas reais na vida, mas esqueceu-se de que a vida real não termina como nos filmes de Hollywood. 

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